CONTRAMÃO DO SISTEMA: Sobreviventes de Peniel, voltem a Betel! - Por Hermes C. Fernandes

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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sobreviventes de Peniel, voltem a Betel! - Por Hermes C. Fernandes

Quando somos encontrados por Deus.

Amado por sua mãe, abençoado por seu pai, e odiado por seu irmão, Jacó fugiu para tentar salvar sua pele. Esaú, seu irmão gêmeo estava enfurecido depois de ter sido passado pra trás duas vezes.
Por haver saído apressadamente da casa de seus pais, não teve tempo de preparar sua bagagem.

Talvez tenha saído só com a roupa do corpo e alguns poucos mantimentos preparados de última hora por sua mãe. Depois de caminhar por horas, Jacó chega a uma cidadezinha chamada Luz. Já era noite. Todos já estavam dormindo. Não querendo chamar a atenção, Jacó preferiu dormir a relento. Tomando uma pedra, improvisou um travesseiro (Gn.28:11).Talvez não se desse conta de que naquele mesmo lugar seu avô Abraão havia tido seu segundo encontro de Deus. Foi lá que Abraão edificou seu primeiro altar (Gn.12:7-8).

Enquanto buscava uma posição confortável pra dormir, Jacó apagou. “E sonhou: Eis que uma escada estava posta na terra, cujo topo chegava ao céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela” (v.12).

Não há como ler esta passagem sem conectá-la às palavras de Jesus: “Na verdade, na verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (Jo. 1:51).

A escada vista por Jacó representava o próprio Cristo, Seu mais importante Descendente, o Mediador entre o céu e a terra. Através d’Ele os anjos tiveram acesso ao Mundo dos homens, e através d’Ele os homens teriam acesso Àquele que estava no topo da escada: Deus.

“Por cima dela estava o Senhor, que lhe disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque. Esta terra em que estás deitado, eu a darei a ti e à tua descendência. A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás ao ocidente, ao oriente, ao norte e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (vv.13-14).

Até aquele momento, Jacó não passava de um fugitivo, sem eira nem beira. Seu objetivo era poupar sua vida das ameaças de seu enfurecido irmão, de quem roubara a bênção da primogenitura.

Parar em Luz era apenas mais um contratempo. Ele jamais imaginaria a experiência que teria com o Deus de seus antepassados naquele lugar.

Por mais longe que estivesse de casa, ele ainda pisava a terra destinada à sua descendência. O lugar onde estava havia sido prometido por Deus ao seu avô Abraão. Bem próximo daquele lugar Deus aparecera pela segunda vez ao patriarca hebreu, prometendo-lhe dar aquela terra por herança à sua descendência.

Aquela experiência lhe proporcionou uma visão quadridimensional da realidade, uma visão espacial e temporal. Através dela, Jacó se situou no tempo e no espaço.

Embora fugitivo, Deus o via como aquele que daria continuidade à saga de Abraão e de seu pai Isaque. A promessa de Deus não havia expirado.


Ele é convidado a olhar para trás e conferir a História, sentindo-se parte dela. E é desafiado a vislumbrar o futuro, no qual não apenas sua descendência seria abençoada, mas também serviria de bênção para todas as famílias da terra.

Quem diria... uma família desajustada como a de Jacó servindo de canal de bênção para todas as famílias do mundo! Coisas de Deus...Jacó sabia que tinha a simpatia da mãe, e que finalmente conquistara a simpatia do velho pai, mas também sabia que isso lhe custara a inimizade de seu irmão gêmeo Esaú. Restava saber de que lado Deus estava.

“Estou contigo”, disse o Deus de seus pais, “e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra. Não te deixarei até que tenha cumprido aquilo que te tenho dito” (v.15).

Ufa! Isso era tudo que ele precisava ouvir. Ele deve ter pensado: Esta foi por pouco!

Jacó pensando em se salvar, e Deus pensando em salvar o mundo. Isso te lembra alguma coisa?Hora de acordar!

“Despertando Jacó do seu sono, disse: Na verdade o Senhor está neste lugar, e eu não sabia” (v.16).

Não há nada pior do que perder a consciência da presença de Deus. Antes de Jacó chegar ali, Deus já estava. Ele não habita em templos feitos por mãos humanas. Ele não cabe dentro dos limites geográficos de uma região. Nem mesmo o Céu dos céus é capaz de contê-Lo. Ele também não é exclusividade de religião alguma. Ele não é católico, nem evangélico, nem mesmo cristão. Ele é Deus! E não há lugar no Universo onde Ele não esteja. O problema está em nossa consciência afetada por nosso estado pecaminoso.

É Sua presença que santifica tudo à Sua volta. Pergunte ao salmista se há algum lugar de onde possamos fugir da presença de Deus (Sl.139).

Assim que percebeu a presença de Deus naquele lugar, Jacó exclamou: “Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; esta é a porta dos céus” (v.17).

Casa de Deus não é onde Deus mora, mas onde percebemos Sua presença. Não importa se dentro de uma caverna, ou no cume do Everest. Onde quer que a consciência humana se desperte, ali é a Casa de Deus, o lugar de Sua manifestação. Todos os lugares deste vasto Universo são potencialmente Casa de Deus. Neil Armstrong a sentiu quando pisou em solo lunar. Naquele momento, a Lua se tornou Casa de Deus. Deus também está em Marte! Mas lá não é Sua casa, até que a consciência chegue àquele planeta, e perceba lá a presença do Criador.

Atravessar a porta dos céus é o mesmo que ser tocado pela transcendência, adquirindo a consciência de Sua presença. Do lado de lá, do topo da escada, encontramos a grande síntese espaço/temporal. Passado, presente e futuro; aqui, ali e acolá, tudo se integra em Deus. N’Ele não há ‘agora’ e ‘depois’, nem ‘aqui’ e ‘lá’. Tudo está perfeitamente integrado n’Ele.

Foi esta experiência de transcendência que marcou o início da caminhada de Jacó.

O texto diz que Jacó se levantou ainda de madrugada, antes do sol nascer, “tomou a pedra que tinha posto por travesseiro, erigiu-a em coluna e derramou azeite em cima dela. E chamou aquele lugar Betel...” (vv.18-19a).

Para que uma pedra sirva de travesseiro, ela tem que está deitada, isto é, na posição horizontal. Ainda que não tenha a mesma maciez e conforto, ela tem quer ter, no mínimo, o formato que lembre um travesseiro. Para que ela se torne uma coluna, terá que mudar de posição. Em vez de deitada, será posta em pé. Em vez de horizontal, será erguida na vertical. E é isso que acontece quando somos encontrados por Deus! Travesseiros se tornam colunas! Tudo o que nos traz algum tipo de conforto, oferecemos a Ele em louvor.Aquele não era um dia como outro qualquer. Merecia um monumento, algo que expressasse a grandiosidade daquela experiência. Uma espécie de marco.

Enquanto os egípcios e outros povos levantavam obeliscos (chamados na Bíblia de “postes-ídolos”), os hebreus tinham o costume de levantar altares. Um obelisco é um monumento à vaidade humana. Um altar é um monumento à glória de Deus.

Talvez por conta da pressa em fugir de seu irmão, Jacó não tenha terminado ali sua obra. Em vez de um altar completo, deixou apenas uma coluna.

Vinte anos se passariam, até que Jacó ouvisse de Deus: “Levanta-te, sobe a Betel, e habita ali, e faze ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú, teu irmão” (Gn.35:1).

Deus sabia que levantar um altar demandaria mais tempo do que erigir uma coluna. Por isso, Sua ordem a Jacó foi para que habitasse em Betel por algum tempo, até que o altar fosse concluído.

Embora à esta época Jacó já houvesse tido outra experiência com Deus em Peniel, a ponto de ter seu nome mudado, ele não poderia jamais se esquecer daquele primeiro encontro. Jamais poderia esquecer que quando fugia de seu irmão, Deus o encontrou e lhe fez promessas. Portanto, aquele marco teria que ser revisitado. Voltar a Betel equivaleria voltar ao primeiro amor.

Betel representa Deus saindo ao encontro de Jacó, enquanto Peniel representa Jacó saindo ao encontro de Deus. Quando Deus vem ao encontro do homem, há comunhão. Mas quando é o homem que sai ao encontro de Deus, há colisão. Ele sempre sai machucado! De Betel Jacó saiu tão inspirado, que foi capaz de remover sozinho uma pedra que tapava um poço, que precisava de pelo menos quatro homens para remover, a fim de saciar a sede das ovelhas. Mas de Peniel Jacó saiu mancando de uma perna. Toda vez que o homem se acha no direito de tomar qualquer iniciativa, chegando ao ponto de agendar um encontro com Deus, ele sai machucado, senão fisicamente, pelo menos emocionalmente. Tenho visto muitos casos... Gente que nunca mais se recuperou de algo que se apresentava como 'cura interior', mas que se revelou depois como uma chaga incurável.

Betel representa o homem acolhendo o dom de Deus, dado espontaneamente. Peniel representa o homem tentando arrancar algo de Deus à força. Betel representa a Graça, Peniel representa a Lei. Betel representa o reino entre nós, Peniel representa o reino tomado à força.

Se Peniel tivesse maior importância do que Betel na vida de Jacó, Deus lhe teria enviado de volta a Peniel para edificar um altar, não a Betel.

Talvez alguém diga: Mas não foi em Peniel que Jacó foi abençoado? Não! Em Peniel ele teve seu nome mudado. O lugar onde ele finalmente foi abençoado diretamente por Deus foi em Betel, quando para lá voltou e edificou o altar. Confira:

“Edificou ali um altar, e chamou àquele lugar El-Betel, porque ali Deus se lhe tinha manifestado, quando fugia de seu irmão (...) Deus lhe apareceu de novo, e o ABENÇOOU.. Disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó, mas não te chamarás mais Jacó; Israel será o teu nome. E lhe chamou Israel” (35:7,9-10).

O lugar da bênção foi o mesmo lugar onde lhe fora feita a promessa.


Deus está chamando Seu povo de volta a Betel!

Quando erigiu a coluna que mais tarde daria sustentação ao altar, Jacó derramou azeite sobre ela. Ao ungi-la, o patriarca indica claramente o que ela representava: Cristo, o Ungido. E não só isso: aquela coluna representava o Seu Corpo na Terra, isto é, a Igreja de Deus. Ou não isso que diz o apóstolo Paulo, ao referir-se à igreja do Deus vivo como “casa de Deus” e “coluna e esteio da verdade” (1 Tm.3:15)? A unção derramada sobre Cristo, o Cabeça, desceu até nós, Seu Corpo (confira 2 Co.1:21 e 1 Jo. 2:20,27).

É interessante ressaltar que Betel foi a primeira parada, tanto na peregrinação de Abraão, quanto na fuga de Jacó.

Abraão deixou ali um altar completo. Jacó deixou ali uma coluna para mais tarde edificar um altar.

Onde foi parar o altar deixado por Abraão? Provavelmente se desfez com o tempo. A erosão, as freqüentes tempestades de areia comuns no deserto, ou talvez seus inimigos, são alguns dos possíveis responsáveis pelo desaparecimento daquele altar construído às pressas. Se ele ainda estivesse lá, Jacó o saberia.

Se Jacó construísse às pressas um altar semelhante ao de Abraão, vinte anos depois talvez houvesse desaparecido.

Deus sabe que uma obra duradoura demanda tempo para ser concluída. Por isso, ordenou que Jacó retornasse a Betel para concluir seu altar. Porém, desta vez, não mais como um fugitivo, mas como um habitante de Betel.


Muitos pastores querem fazer suas igrejas crescerem rapidamente a qualquer custo. Em nome de suas estratégias mirabolantes, muita gente sai machucada. Para levantar uma coluna, basta algumas poucas horas, mas pra se levantar um altar duradouro, necessitamos tempo. E isso faremos como habitantes de Betel, e não como fugitivos.

Tenho a impressão de que a igreja contemporânea tomou o caminho inverso. Em vez de transformar travesseiros em altares, tem transformado altares em travesseiros. Tornamo-nos a Bela Adormecida do conto de fadas, à espera do Príncipe Encantado para despertá-la. Somos o Gulliver da fábula, que por não saber a força que tem, deixa-se dominar pelos habitantes da ilha, que o prende com cordas que mais parecem linha de carretel.

Hora de acordar, igreja!

O que tem sido pregado em muitos púlpitos parecem canções de ninar, que só produzem sonolência espiritual nos fiéis. A igreja de Cristo precisa acordar de sua letargia e alienação, e engajar-se na transformação do Mundo.

Ora, se ela é coluna, logo concluímos que ela é apenas o ponto de partida de algo ainda maior.

A coluna está destina a ser transformada em altar. E o altar é pontapé inicial para a edificação do Templo.

Este Templo cresce de dentro para fora. Paulo diz que em Cristo, “todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor” (Ef.2:21).

Em Sua primeira passagem por este Mundo, Jesus lançou-Se como Pedra Fundamental, ou ainda, como coluna na construção do Templo de Deus. Dez dias depois de Sua ascensão ao céu, Ele enviou o Seu Espírito para que habitasse conosco para sempre, e através de nós edificasse o Seu Templo definitivo na Terra.

Ele não tem pressa. Ele está reunindo pedra por pedra, tijolo por tijolo, e assim, erigindo um altar que jamais será desfeito pela erosão do pecado.

A igreja é, por assim dizer, o gérmen da Nova Humanidade.

Este Templo que Deus está a construir é a civilização do Reino.

O problema é que a igreja se acha um fim e si mesma, e por isso, se fecha, se enclausura, vive uma espiritualidade ensimesmada.

Uma coisa é Jacó foragido, com pressa. Outra coisa é Jacó recebendo de Deus a ordem para habitar em Betel.

Betel também representa o mundo ao nosso redor. Não é um lugar sagrado em si mesmo. Mas um lugar que se sacraliza aos olhos daqueles que têm sua consciência iluminada pela presença de Deus.

Nosso lugar de encontro com Deus é o mundo. É nele que temos que construir nossos altares.

Acredito piamente que Deus está nos mandando de volta ao Mundo. Mas dessa vez, não como foragidos, mas como habitantes permanentes.

Geralmente se focaliza apenas quando Jesus diz: “Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou” (Jo.17:16). Mas se esquece que logo em seguida, Ele também diz: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (v.18).

Desde que Deus colocou os pés neste chão, o Mundo passou a ser terra santa. Ele é o lugar de encontro entre Deus e os homens.

Lembre-se que a escada vista por Jacó era colocada na terra. Seus pés estão fincados no chão, e não no ar.

Lemos em Gênesis 32:1-2:

“Jacó também seguiu o seu caminho, e os anjos de Deus o encontraram. Quando Jacó os viu, disse: Este é o acampamento de Deus. E chamou àquele lugar Maanaim.

A Terra inteira é o Maanaim de Deus. Deus a escolheu para nela armar Sua tenda. Por isso, é quando seguimos nosso caminho no chão desta vida, que somos encontrados pelos anjos de Deus.

Era como se Jacó pensasse: Bem, se lá em Betel é a casa de Deus, aqui só pode ser Seu acampamento. Ele mora lá, mas acampa aqui.

O que ele talvez não soubesse é que Deus habita e acampa em todo lugar. Toda a Terra está cheia de Sua glória.Deixemos que os anjos de Deus nos encontrem enquanto trilhamos os caminhos da vida.

Deixemos que os sinais nos sigam. Deixemos que as bênçãos nos persigam e nos alcancem, enquanto caminhamos pelas sendas desta vida.

Não precisamos nos enclausurar em retiros, em montes, em cultos intermináveis, em vigílias para extrair algo de Deus. Precisamos nos voltar para fora de nós mesmos, servindo a Deus, enquanto servimos àqueles que encontramos no caminho.

Que sejamos conhecidos, não como aqueles que prevaleceram contra Deus, mas que foram vencidos por Seu amor, e que, agora, difundem Seu suave perfume por onde andam.

Christus Victor!

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